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Contando Contos

• 16/8/2008 - Curso "Quatro Romances Universais"

Curso em 04 meses com o escritor e doutorando em Estudos de Literatura Brasileira (PUC-Rio) Leonardo Vieira de Almeida

Início: 02/09/08 – Término: 16/12/08

Encontros às terças-feiras, das 20:00 às 22:00h

Valor do curso: R$ 200,00

Rua Conde de Irajá, 370, 3º andar, Botafogo

Informações pelos telefones 3238-8221 e 8257-5443 ou e-mail: leonardo33vieira@yahoo.com.br

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• 1/8/2008 - A filha

Havia esquecido que a terra fora lavrada com extremo cuidado, por mãos fortes de pessoas não tão fortes de espírito, curvadas pela submissão ou a fé não posso dizer, porque a fé não é uma forma de dependência a alguma coisa, seja homem, pedra ou carvalho? Quando as cabeças deles se levantaram, os rostos, da cor da fagulha e das lágrimas, espiavam-me como a um cão, ou animal de fúria, erguida a testa sem ruga alguma, declínio da fé ou da velhice. Que ódio podiam ter de mim? Se ousassem se defender, extirpar a coleira que lhes cingiam os três pescoços, os pés atados à terra – homens que pareciam troncos de árvores enegrecidas, estampados (o emblema da vergonha?) sobre o fundo branco da casa, na distância do tempo, longe de tudo o que os enterrou, muito longe e ao mesmo tempo... ouço-os pelo açoitar do vento nas glicínias, lancetando a carne das coisas sedentárias, autofágicas.

Bruno me contou que Pamela vai chegar daqui a alguns instantes, pela estrada, uma linha sinuosa de terra queimada, cingida pelos algodões, botões leves de flor, com salpicos vermelhos; então, não serão os algodões de hospital, cujas flores (o sangue dos doentes) têm essa mesma consistência: das facas afiadas, aço polido e branco no centro vermelho, que pode ser o osso sorrindo por entre a carne, ansiando a morte, essa mulher que, como uma afinadora da pele e da matéria, desbastando corpos, desventrando-os, com delicados bisturis (seus brinquedos) desenhando incisões, desbastando, até o nada – o céu lavado de algodões, seus puros olhos, antes da mácula; por que ousaram feri-la?

Ela vem no último ônibus, o que parte de sua casa às três da tarde. Vem hoje mesmo, não pode ser de outro jeito. Me ligou quando o Sr. estava no quarto, dormindo? Tinha uma voz esquecida. Contou que vem com uma garota. O Sr. entende? Deve chegar aí, por volta das seis.

Um cavalo a voz de Bruno, relinchando com poeira e velhice, se não fora o estertor seco de areia descendo por funil metálico, melhor dizendo, uma ampulheta. Com sua boca de tempo, de engolir coisas ao tinir dos cascos. Mas um arrastar, de cavalo velho, algo assim como: Ela vem... sim Sr.

Penso que Bruno não é como aqueles, os três negros que andavam sempre como siameses, de quem, das trevas, só posso destacar os olhos, lâmpadas acesas na profundidade. Arrastando-se como velhos anciãos barbados, pintados de fuligem, apinhados quando se sentavam para comer, para beber. Debruçados sobre um córrego de água, como um Cérbero de sombra. Quem será Bruno? Qual o desenho de seu rosto? Imagino um prato, de louça, com uma ameixeira furando a superfície lisa. Da carne enrugada das ameixas, do negro reluzir das frutas de efígies, os homens mordem o branco do prato. Eles surgem do rosto de Bruno, três morcegos vindos do tempo, da catedral erguida pelo presente, o futuro, o passado, o estar aqui e agora em frente à porta aberta para acariciar os algodões respigados do sangue dos enfermos. Catedral indiferente e fria em sua primeira aparência de um hospital eterno, zunindo o vento que os incita dentro da carne manchada, mesmo da carne velha há esse cheiro doce, a doçura numa coroa de defunto, o céu coroado e lúgubre (não sei). Nunca sei, e posso perguntar a Bruno: “Como está o céu?”. Deve estar limpo, azul e suave, por que Pamela vem, com o vento, com os algodões manchados de sua própria culpa.

Os negros, o Sr. lembra? Cantavam como violas, até mesmo quando Pamela caiu da escada, quando tocaram ainda mais violentamente, um som de fúria entristecida, um dobre de sinos. Mas ela não quebrou a perna, Sr., não torceu e o médico disse que podia colocar no lugar e Lea vem daí a pouco entre os algodões puxando da perna apesar de que se não fosse por isso ela seria a mais bela profetisa do campo como uma mariposa presa na parede naquele dia em que os negros cantaram para ela o Sr. escutou como cantavam alto os violões como um som no fundo de lamento e gozo ao mesmo tempo se não era a alegria? E o Sr. entrou lá na cozinha de noite porque o Sr. já não costumava dormir desde que Pamela nasceu e ela cantava como os negros baixinho e riu do Sr., não foi? Riso de convite ou de quê? Mas não se aproxime muito da porta senão cai com o degrau veja como os algodões falam, um botão com outro? Falam do sangue esparzido para frutificar a colheita assim como os negros cantavam para frutificar nossa família, uma família de dor, sem conhecimento.

Ali pode ser ela, Lea, ao lado de Pamela puxando a perna, e Bruno nunca deixa o hálito das cerejeiras quando o vestido de folhas molhadas ressalta a pele clara, os algodões choram de cigarras, pois Bruno espera a chuva, que é água de Pamela, o que em seu corpo, apesar dos negros postados na calçada - porque já saíram do ônibus, três Lúciferes escandidos nos paletós brancos, que seriam esquifes não fosse o lirismo das lapelas -, guarda uma rosa úmida nunca sazonada pela pele escura do criado agora pousando a mão encardida em minha cadeira que já não sou mais o adorador de Pamela, porque a adoro pelo cheiro dos algodões o clorofórmio dos doentes nas enfermarias quando a vi e sua juventude. Mais se aproxima, pois o arrastar da perna é meu guia entre o mormaço, as cigarras inchadas não trazem a água de Bruno, mas um canto estrídulo de vitórias secas, e Bruno aferra os dedos na cadeira, quisera sentir as pernas quando depois do ônibus, não o dos negros, levaram-me aos leitos nodosos do tempo. Pamela respirava por um balão toda sua brancura e eu a quis, como jamais o desejo naquela hora em que seu rosto conspurcado as ataduras as macerações da carne de uma jovem sem conhecimento do que os negros poderiam fazer com ela em uma fazenda as ordens do pai era para tocarem enquanto um pai se despia entre os sacos empilhados de maçãs uma filha não nasceu para isto, nenhum filho deveria ter nascido se não fosse para a bondade.

Mas o Sr. então posso contar como ela está. A cabeça inclinada pede desculpas para o sol e ele batiza sua vontade. Ela logo erguerá a face e evitará revê-lo, porque tudo no Sr. lembra-lhe a profanação no hospital, ela nunca o perdoou tê-la visto naquele estado há vinte anos o corpo ferido a enfermeira tentando salvar-lhe o lado esquerdo do rosto  que acabou perdendo um pouco da visão.

Só era uma menina, na fazenda vinha pelo lado do fogo, este lúcido modo de doar-lhe o dia. Pisa o chão da cidade, mas os botões de algodão recendem ao campo, ao martírio do sangue, pois estão manchados. Lea já se aproxima do velho em cima da cadeira em posição vencida, que poderia ser seu avô, mas não é, que quis Pamela naquele quarto de hospital e ela não o quis, e neste intervalo construído por uma recusa um corpo sofreu, sofre e continuará a sofrer. Sempre um corpo se humilha ao outro vencido pela fragância e a carne, a delicadeza, quer a casa materna entre os cornisos, há lebres que ela espantava, sua arrogância diante do outro sexo a fez ser o favo seco, na fazenda nunca houve um ninho de sol, o pai coroava a mesa seu chapéu um sol velho escarificava seus olhos de pontais os negros por trás das janelas esgrimiam murmúrios o cheiro a enojava porque negros não podiam ter nascido naquela mansão de olivais castrados.

Mas se não foram os negros que a espiavam passivos enquanto o pai conhecia seu íntimo? Colmada de maçãs, não como agora – já atinge o alpendre e nem olha para mim, tem a vista com esta expressão mortuária, logo após vem Lea -, cheirava a frutas, o corpo do pai foi o único conhecimento da intimidade. O paiol, os negros possuem ainda a mesma expressão de espanto, e se pudessem, teriam evitado as núpcias profanas, eu ouço quando Lea me vê o rinchar de um sino, talvez o coração de Pamela irmane de uma igreja, seu olho meio cego a rosa de algodão no buquê em suas mãos, o vestido de rendas brancas de noiva possa sentir sua mão mais delicada que a chuva esparzindo, poderíamos viver e eu veria nas trevas, deixaria que trouxesse seus negros, enfeitaríamos a casa ensinaríamos a Lea o amor dos pais, mas cada tentativa de emergi-la das águas em sombra teria como paga o desprezo, pois um filho das sombras não sabe do prazer e da partilha. Bruno desloca a cadeira de rodas e não sei desta visita de Pamela, apenas veio porque o pai fora encontrado no celeiro, um poço na garganta, a faca ungida às maçãs. Os negros, com estas mesmas lapelas que ceifam a porta da casa, faziam roda em torno do corpo, Pamela, soube que ela ajoelhou-se e beijou a rosa coagulada, a boca uma orquídea de sangue, e riu como loba, seus dedos tintos pintavam o ventre inchado, os negros a levaram aos gritos para dentro da fazenda, foram eles mesmos que a adormeceram, depois saíram para a lua núbil e cortaram o tronco do carvalho, a noite regou-se de golpes de clavas. Das outras fazendas puderam vê-los, tinham assumido a altura dos carvalhos, erguendo o caixão, era uma barca na madrugada, e o pousaram na terra da pequena montanha, as violas e fogueiras para a rosa eterna.

Mas, e agora Sr., escuta como Lea tem o mesmo andar do pai, só que suavizado pela queda? Por que ela acaba de entrar em sua casa, um pé arrastando, nunca vi uma menina tão triste. Se você fosse o pai, apostaria que essa tristeza pudesse morrer? Mas ela foi gerada no que Pamela acredita ser o amor, o diário rito de silêncios e controles. Os três negros, pode vê-los das trevas? Eles não estão aqui, à medida que o levo também para dentro, porque hoje teremos um sabá, todos os quartos estão preparados, os toucadores, espelhos, relógios, talheres de prata, há fragrância de flores nos banheiros, tapetes vermelhos nas escadarias, papoulas nas penteadeiras, um velho mocho nos anuncia o erotismo indigno. Eu digo que nenhum negro está aqui, mas Pamela e Lea os crêem seus anjos, um deles pendurou-se no lustre da sala, abre as asas e a crina de morcego é uma grinalda de sombra nos cabelos de Pamela; um outro dedilha música no fio do lustre, lembrando-nos de sua terra, num bar cevado de rebenques; e, afinal, não será este último negro, subindo as escadas, o corpo de Lea projetado pelas luzes dos candelabros? Mas que tudo isso importa, se Pamela se deixa cair no leito, se irá ensiná-lo a linguagem do carinho?  

Mas, ao fim, é que não posso. Bruno me colhe como um filho, cruzo os braços em torno de seu pescoço, ele sobe as escadas, carrega-me como flor ungida no prado. As teias de sua velhice me lavaram, perfumaram-me, porque aguardei toda vida por esta hora, e ainda não posso. Pamela já tirou o vestido, aos olhos da filha, o corpo rogando a virilidade, seu corpo o mais desejado bálsamo, os braços abertos, a carne entre as coxas entoando música dos metais de um gigantesco órgão na catedral, há os báculos, um monge espalhando pétalas nos lençóis, coroando Pamela. Por que não tiraram Lea, por que se mantém sentada numa cadeira ao lado do toucador? Os negros se uniram em um tríptico, que é o rosto da filha, o prato de louça perfurado pelo galho da ameixeira, o olho cego de Pamela se ri de meus olhos, pois, afinal, a sinceridade não pode se unir à malícia, porque o pai surge de ambos os rostos, de Lea, de Pamela. E Bruno não pode me deixar, não deve me deitar no quarto perfumado, onde o espelho guarda a efígie da filha, com chavelhos brotando dos cabelos envelhecidos. É uma menina de grande idade, a profetisa, e dos três negros se forma um rosto de barba espetada, a mesma poça no pescoço, o sinal de nascença de Lea. Mas me abandonou, Bruno se afasta para a porta, sinto as mãos de Pamela – e não foi por elas que teimei em viver? – adornar-me os cabelos. Naquele celeiro haviam maçãs, como agora, as mesmas que Lea faz sair de um cesto, sou então cercado de maçãs, tenho mulher e filha, Bruno se acarinha nas trevas como um feto. O pai me cobre de ácidos frutos, entre os carvalhos retesados os três negros ensaiam uma dança, saem das casas famílias com cestos, é meu corpo partilhado as pequenas frestas no quarto, cigarras espirram úmidas cerejas e não poderia dizer que não é o medo o que me causa o olho maculado de Pamela, ele me sorri, a casa é um templo constelado, há o lobo, o lince, os cães. Há machados acesos. Bruno ainda vai nascer. Os primeiros dobres do hospital me chamam até o quarto e cigarras chovem junto com maçãs. O perfume dos espelhos, das taças, a sagração de um órfão, ofélias então ressuscitam dos rios e cavalos decapitados bebem das margens o incêndio porque Lea tem um poço vermelho nos lábios.

 

 

Leonardo Vieira de Almeida        

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• 26/7/2008 - Dos "Diários"

26 de julho

 

A leitura de Carson McCullers torna o dia menos desalentado, apesar de sua obra ser um canto ao desalento, como em “The Ballad of the Sad Café”. Miss Amelia Evans transpira este ar de flor mortuária das bayards do Sul faulknerianas, apesar do corpo masculino e da ferocidade, há a bárbara ternura pelo anão Lymon, ao fim, o comparsa em sua derrocada. A vingança do ex-marido, Marvin Mancy, a quem foi negada a única possibilidade da ternura pelo desprezo da esposa, age diretamente em sua carne: é uma espécie de floração da “mulher”, sufocada presença no longo cabelo encanecido, nos grandes músculos relaxados e minguados, até assumir a irreversível pose da solidão: “she was thin as old maids are thin when they crazy”.

Aqui, evidencia-se a notável tradução de vida em arte, o “desalento”, a “decepção” de McCullers em toda sua obra. O sonho de ser pianista, vetado pela doença, os amores travestidos e infelizes. Suas personagens estão sempre a buscar o sonho perdido, um companheirismo sem portos ou amarras. Na literatura norte-americana, creio não ter encontrado uma canção sentimental mediada em palavras tão acentuadamente gótica, no sentido de que esta forma de arte expressa o matrimônio com o impossível, como a que entoa nos olhos de Miss Evans, antes do auto-sepultamento no extinto “Café Infeliz”: “And those grey eyes – slowly day by day they were more crossed, and it was as though they sought each other out to exchange a little glance of grief and lonely recognition”.          

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• 12/5/2008 - Teoria

Tornei-me homem muito mais tarde do que o senso comum pode esperar. Se a evolução de um homem o leva a uma saúde ignorada – qual indivíduo forte sabe de sua fortaleza? -, o progresso de uma doença psíquica não acarreta danos consideráveis ao entendimento do que é a liberdade. Um doente psíquico crê piamente, considera de maneira pia, que seu estado é a melhor saúde. Estágio esse, diga-se de passagem, o mais saudável.

Posso considerar-me um homem harmônico, até a época em que me transformei, definitivamente, em homem. A descontinuidade não pode ser percebida entre quatro paredes onde se vive pela subserviência. Servir cegamente é servir à saúde. Que é a saúde senão a crença na unidade? Quando saí ao mundo – um bebê saudável, diga-se de passagem, como sempre tenho ouvido -, a matéria polimorfa de meu íntimo foi sendo desbastada, curvada, delimitada, até fixar-se num objeto de cinco anos de idade: daí para frente a fluidez de meu íntimo estacou. Pode-se dizer que a subjetividade de minha geração sofreu um deslocamento, ou, em vocabulário menos científico: foi expelida de seus ovários de cogumelo parasitário. Enrijeci-me, de clara e gema de ovo para casca não esfarelada – um ovo pré-histórico.

Pois minhas faculdades inatas - a fome, a ânsia de gritar, chorar - não encontraram pauta nem desenvolveram música. A música precisa, justamente, de nenhum significado para se expandir. Alicerçada na descontinuidade. A harmonia obsedante de um menino de cinco anos cuja pauta musical era a da escala monocórdia... da mãe! Ah... digo! Com a devida pausa, este nome... que me enrijece e me acaricia. Ele golpeia-me como gongo. Que emite angústia e insanidade. Apenas soa fantasmal. A qualidade de fantasma, sua força é de fato irromper como mudo grito.

Ela era uma mulher alta, magra, de ossos como clavicórdios quebrados, pálpebras estufadas, mãos engelhadas. O cabelo: uma touca frouxa de fios de prata. Se a harmonia foi o eixo em torno do qual me subsumi, pelo contrário, esse mesmo eixo, que a tudo esterilizava, era, por seu lado, absolutamente descontínuo. Tenho de delimitá-lo: a incapacidade de desenhar um retrato. Se o fosse desenhar – iria escarificar a folha de papel com tanta violência e disparidade, o lápis de carvão em pedaços. Mostraria a qualquer um, que me diria: não vejo nada além de uma cova.

Foi desse pleroma que me alimentei desde que vim ao mundo. Se fosse dada aos bebês a capacidade de discernir seus pais biológicos, digo que, se a houvesse visto pela primeira vez, teria me suicidado por asfixia. Talvez antes mesmo de ver-lhe o nenhum rosto. Só a cavidade denteada de seu sexo abúlico, respirando o cheiro de túmulos, me faria arroxear. Isso me lembra, agora – não sei se contado ontem ou hoje, ou há poucos instantes – do caso de um bebê preso pelo útero da mãe. Sem que os médicos nada pudessem fazer, terminou estrangulado.

Esse exemplo me permite penetrar mais profundamente em meu passado à busca de subsídios para a teoria. Uma mãe que, mesmo antes do filho nascer por completo, o estrangula, não deveria, após o parto, ir diretamente ao patíbulo? Essas me parecem a princípio as consciências mais devoradoras e aniquiladoras da saúde. Mas, observando melhor, com a ajuda de instrumentos mais eficazes, é possível observar, naquilo que nos parece o mais brutal assassinato, a origem da graça. Pois, analisem: a mãe que estrangula o próprio filho antes de nascer por inteiro, só o faz, pelo menos para mim, por compaixão, por ter consciência, nesse instante fugaz, de que mantê-lo vivo seria a mais dolorosa forma de subjugá-lo à harmonia. Seria estrangulado, ao longo de uma vida inteira, por cada mínima fração de segundo. Deveria, em contrário, ao que todos pensam, ser abençoada e elevada aos céus.

Eu, por meu lado, não tive a sorte de ter sido estrangulado logo que nasci. Mas atinjo, aos quase quarenta anos, uma forma mais livre. Um homem que teve por infinitas vezes a corda no pescoço é um homem, como todos os criminosos, muito desconfiado. A marca da corda no pescoço é apavorante de se mostrar à luz do dia. Se evita uma aproximação mais íntima dos outros, qualquer ruído apavora. Corre-se como louco se alguém chama. Pensa: onde estão os esbirros? E seu peito bate de amargura doce à sensação de que um punhal pudesse escoimá-lo com a última sentença.

Podem me condenar? De fato, podem. As pessoas com quem convivo não sabem de nada. Mas, se soubessem? O juiz, toga e peruca à moda antiga, soaria o martelo; e os jurados: culpado! Cadeira elétrica. Fluído letal na corrente sanguínea. Ou, a harmoniosa leveza de um patíbulo. A espinha dorsal partindo como galho tombado pelo curvar dos frutos. O outono dos fracos tem o peso do luto.

Pois, se soubessem. Mais ainda: se chegassem a descobrir que a saúde começa onde nasce o assassino. Essa é a máxima de minha teoria. Uma teoria exige princípios que derivem uma síntese, na maior parte dos casos. Minha síntese consiste em: só construindo um patíbulo para aqueles que sempre nos levaram suspensos pela corda, é que se pode, por princípio, rir. E o riso possui a consistência de folhas correndo por um lajedo de túmulos na estação fresca. Não é um quadro da mais absoluta incoerência? Mas, quando se pode extrair incoerência do absoluto?

Construí esse patíbulo, por muitos anos. Talvez, desde que meus olhos se cegaram de luz. Começou como um brinquedo, que evoluiu ao longo do tempo, sempre ingênuo, da mais absoluta falsidade. De outros brinquedos combinei as pernas, a plataforma, o madeiro, a corda, o banquinho. Aplainei com perfeição estrados para a platéia. Erigi o corpo jurídico. Proferiram a sentença. E a máquina, certeira, leve, como sopro, um vento morno purificador dos pulmões, apenas tombou o banquinho, e ela...

Por princípio, continuo escondendo minha mais bela obra ao mundo. Porque no dia em que mamãe partiu-se como um palito de dentes, a platéia urrou. E, ah, mais, sabem? Mantenho a mesma cena. Tê-la enforcado foi a exigência para me tornar um homem. E o brinquedo, praticamente construído, agora é real. Conservo tudo em seu lugar. E quando volto para casa, posso vê-la pendurada: os clavicórdios secos e sonoros. Pois sabem, que ela canta? Mas como poderei lhes dizer isso: que sua música me é como a mais doce acusação?   

 

Leonardo Vieira de Almeida

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• 28/4/2008 - História de um país

Chegou um tempo em que Paulinus, após meditar por longos anos sobre a natureza humana, concluiu que esta se escraviza às palavras - pois não é o homem uma junção de diversos vocábulos? -, que leis, vestimentas, pensamentos, tristezas, sofrimentos, alegrias, arrogância, luto, inveja, cobiça são grilhetas por meio das quais se laceram os homens, angustiosos de que seus corpos nada mais sejam do que um vasto dicionário onde lêem a si próprios, ou lêem os outros, deste modo aceitando-se ou condenando-se, dependendo da interpretação de cada um. Paulinus, portanto, no desejo de livrar o homem de tanta miséria, resolveu acabar com as folhas impressas, com toda sorte de livros, breviários, enciclopédias, manuais, compêndios astrológicos, de medicina. Mas isso não bastava, pois as palavras ainda permaneciam nas bocas de muitos. Alguns, por revolta às ordens do soberano, recitavam em praça pública obras inteiras, continuavam se amando, matando-se, temendo e adorando, pois sempre é deste modo a vida humana. Então Paulinus mandou editar outra lei, que fez gritar a muitos, só deixou mudos os resignados, os submissos, os que consideram a palavra “verdade” a máxima lei, ou o mais alto primum mobile da obediência, pois cultuam a sociedade, a estética, a falsa e irremediável parolagem. Assim, foi editada a lei que obrigava a todas as línguas serem devidamente cortadas das bocas dos homens, com incisão, cauterização e curativos executados por cirurgiões, num único dia. Terminou, desta maneira, todo o país a estar sem língua, purificado dos mexericos, da violência verbal, mas também dos ditos de afeto que acariciam espigas de sol nos rostos dos amantes, dos sussurros benfazejos, das palavras de carinho a uma criança. E para que a lei não se deixasse trair por falhas, foi também editado que todos os filhos dos amputados, logo que nascessem, fossem-lhes cortados os cordões umbilicais junto com as línguas, e assim os filhos de seus filhos, por toda eternidade. A língua de Paulinus também foi devidamente extraída, e, após alguns dias, todos os ferimentos das cirurgias estavam sarados, não se ouviam mais palavras no ar, só de vez em quando um rosto aparecia nas ruas, ou numa janela, na abertura de uma porta, as mãos apertando as têmporas, gritando mudamente sobre a extensão das praças, mercados, pináculos das catedrais, passeios e cemitérios, como grandes badaladas de sinos sem sons. E estavam terminados os comícios públicos, políticos, as falsas promessas, os versos adúlteros? Paulinus podia se considerar satisfeito com sua bela obra? Não passou muito tempo para que as palavras se mostrassem de novo, não no ar, mas nos olhos, porque as pálpebras contêm todo um vasto dicionário, gramáticas vítreas, índices fragmentados nas íris e nas pupilas. Um olhar de medusa pode congelar um filho. Olhos de rio profundo podem banhar o coração de uma jovem, fazê-lo recolher sua caixa de sangue entre peixes pontudos e prateados, brilhantes como o pão e a música. Todos os olhos podiam se virar contra Paulinus, como centenas de cabeças de Argos, gritando de muda loucura, acusando-o de ser o inventor da fala hieroglífica. E as mãos falavam, as pernas, omoplatas recitavam uma tragédia, um seio nu irmanava de lírica. Até mesmo um vestido sem ninguém, descansando na vitrine de uma loja, falava com Paulinus, através de seu corpo vazio. E um esqueleto num laboratório parecia lhe dizer possuir mais carnes que uma pessoa viva, convidando o soberano a experimentar o prazer entre seus ossos polidos.

O decreto seguinte foi a extração de todos os olhos, executada da mesma forma que as línguas pelos mesmos cirurgiões. Antes que Paulinus perfurasse suas retinas com alfinetes de prata, viu uma mulher na varanda de uma casa, balançando-se numa cadeira, segurando o bebê entre os braços. As órbitas vazias de ambas as faces falavam, o bebê ainda sorria, viu um homem sair da casa com a bengala. Tudo falava.

 

 

 

          O último decreto foi executado logo em seguida. Também os ouvidos foram perfurados, as orelhas cortadas. Assim Paulinus continuava seu desígnio de acabar com as palavras. Mas elas planavam dentro de seu corpo, e, agora, procurava saber se elas poderiam ser eliminadas por um processo de purificação sanguínea, pela extração dos rins ou do baço. Se substituísse seu coração por um relógio, elas deixariam de existir? Com sua bengala, atravessava não sabia que lugar de seu país, sentia os cheiros: fuligem, pólen, poeira. O odor de um pássaro voando? De um homem beijando uma mulher? Seus pés se molhavam, talvez na beira de um córrego, numa poça de lama? Coisas quebradiças sob seus pés: folhas? Nunca podia acabar, nunca. Arrancaram-se também os narizes. Mesmo assim, todos no país governado por Paulinus continuavam a sonhar com narizes, orelhas, olhos, línguas. Todos xingavam, fornicavam, agrediam-se, enganavam-se uns aos outros, entoavam promessas, falavam de campos de milho, de cavalos nascidos dos rios, com grandes crinas de diamantes, de músicas que se escutam nas pétalas das rosas, de uma raposa que voa.

 

 

O arqueólogo responsável pelas escavações neste país nada pôde saber dos decretos executados por Paulinus, porque ele não os promulgou em nenhum escrito, pois o primeiro decreto havia sido o de acabar com toda forma de escrita, seja a passada, a presente ou a por vir. Nem das amputações das línguas, dos olhos, orelhas e narizes, pois só restavam as ossadas de seus antigos habitantes, brancas, sem carne alguma, luzindo sob o sol como rosas afiadas. Mas para o arqueólogo o mais espantoso foi ter descoberto um povo que não possuía nenhum documento escrito, que, por sua vez, não deveria ter desenvolvido a comunicação oral, acreditando que a mesma não houvesse passado da fase hieroglífica, na qual se comunica por meio de gestos do corpo. O mais espantoso, porém, foi o que encontrou no que parecia ter sido alguma espécie de templo, talvez um local de culto a uma profetisa, a qual ministrava os oráculos da cidade. Constituía a parte interna uma espécie de sala abobadada, toda caiada de branco, coberta, de cima a baixo, de estantes que podiam chegar ao céu. Em suas prateleiras, o pesquisador, estarrecido, descobriu milhares de órgãos humanos: línguas, olhos, narizes, orelhas, boiando dentro de uma solução aquosa em enormes ampolas de vidro. Deduziu, então, que aquele deveria ter sido um templo de sacrifício a algum deus. Essa idéia foi ainda mais reforçada quando o arqueólogo e toda sua comitiva se depararam com uma mulher no centro do templo, que devia ter uma idade ancestral, pois sua pele era engelhada como a de um peixe pré-histórico, as maçãs do rosto, descarnado e enegrecido, eram profundamente encovadas; as unhas das mãos e dos pés chegavam a se enroscar uma nas outras, tanto como os cabelos brancos e desgrenhados que se espalhavam pelo chão. A boca não parava de falar, uma combinação de sons desarticulados e histéricos, que uma hora davam a impressão de grasnados de aves de mau agouro, outra hora pareciam risos de criança, outra uma torrente de chuva, lobos devorando torsos de carniça. Os olhos, mais brilhantes do que lâminas, olhavam para o vazio. Ela contorcia as mãos, e o arqueólogo mais sua comitiva chegaram a concluir que a razão há muito tempo abandonara aquele corpo. A filha de Paulinus via todos, ouvia-os, cheirava-os, sentia o gosto de sua saliva de múmia, envolta nos trapos imundos e indiscerníveis de um antigo vestido de núpcias.            

 

 

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• 13/2/2008 - Elca, de Francisco Brines

 

ELCA

  

A Juan Bautista Bertrán

 

   Tudo é flor: as rosas

aromam o caminho.

E ali passeia o ar,

se estaciona o fulgor,

e roça minha vista

a luz, a flor, o ar.

 

   Que tudo vai ao mar:

e larga sombra cai

das montanhas de prata,

pisa os breves pomares,

ofusca os poços, chega

com seu frio ao mar.

 

   Tudo é paz: a hera

desborda do telhado

com rumor de jardim:

jasmins, asas. Ascendem,

até o azul do céu,

os ramos do cipreste.

 

   Que tudo vai ao mar:

e a turva laranjeira

enviuvou em sua flor

para voar pelo vento,

cruzar fundas alcovas,

ir por dentro do mar.

 

   Tudo é feliz vida:

e ante o verdor do pinho,

os gerânios. A casa,

a branca e silenciosa,

tem abertas varandas.

Dentro, vivemos todos.

 

   Que tudo vai ao mar:

e o homem olha o céu

que escurece, a terra

que seu amor reconhece,

e sente o coração

pulsar. Caminha ao mar,

que tudo vai ao mar.

 

Francisco Brines

Trad. de Leonardo Vieira de Almeida

 

ELCA

  

A Juan Bautista Bertrán

 

    Ya todo es flor: las rosas

aroman el camino.

Y alli pasea el aire,

se estaciona la luz,

y roza mi mirada

la luz, la flor, el aire.

 

    Porque todo va al mar:

y larga sombra cae

de los montes de plata,

pisa los breves huertos,

ciega los pozos, llega

con su frío hasta el mar.

 

   Ya todo es paz: la yedra

desborda en el tejado

con rumor de jardín:

jazmines, alas. Suben,

por el azul del cielo,

las ramas del ciprés.

 

   Porque todo va al mar:

y el oscuro naranjo

ha enviudado em su flor

para volar al viento,

cruzar hondas alcobas,

ir adentro del mar.

 

   Ya todo es feliz vida:

y ante el verdor del pino,

los geranios. La casa,

la blanca y silenciosa,

tiene abiertos balcones.

Dentro, vivimos todos.

 

   Porque todo va al mar:

y el hombre mira el cielo

que oscurece, la tierra

que su amor reconoce,

y siente el corazón

latir. Camina al mar,

porque todo va al mar.

 

Francisco Brines

Do livro Palabras a la oscuridad (1966)

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• 9/2/2008 - As cinzas da noite

Roberto chegou na última hora da tarde, quando as luzes do mosteiro começavam a declinar as sombras, desenhando ogivas no pátio. Logo após tocar a campanhia, saiu do portão um jovem baixo, usando hábito, branco e de magreza incomum. Informou a Roberto que já o esperava. O sorriso discernia afabilidade ou certo cinismo, disfarçado pelo rosto aparentemente amável, que despertava interesse. Pegou as malas das mãos de Roberto e pediu que o acompanhasse. Entrou por um avarandado que descortinava o vale, cercado por morrotes, em cujos topos tremulavam coroas de álamos. Além das luzes que, na intuição de Roberto, deveriam ser as da estrada, serpeavam os trilhos do trem. Atrás deles, muito distante, como algo que procurava afastar, com toda força, com todo sangue, velava o rosto da Senhora Fiúme, sua mãe. Há quanto tempo que ela permanecia acordada, aguardando-o, era o que o fazia ceder, pensar que a longa ausência não poderia mais prosseguir, daí por diante. Mas se deixasse se entregar a esse outro sentimento, menos puro, mais ingênuo, seria descerrar a trégua, espantar as cinzas das batalhas há muito iniciadas, perder, enfim. Porém, o que ele havia ganhado, de fato? Procurava pensar, enquanto o monge andava vagarosamente, talvez cansado pelo peso das malas, atravessando o vale que anoitecia. "Um gato poderia ser mais trôpego?", pensou. "Acerando as unhas em toda minha fraqueza, sondando meus terrores inúteis". Ele se lembrou de que não adiantara fugir, que, afinal de contas, nada acontecera em cinco anos. Enquanto vivera com Rosa Fiúme, sua mãe, tivera certos presságios, algumas esperanças. Suas tentativas sempre frustradas de conquistar as mulheres, mas, mesmo assim, prosseguia, não recuava. E depois? Nada mais ocorrera. Ninguém surgira nesse tempo, porém, se tornara muito mais forte a figura de Rosa. Todas as vezes que acordava, suando, trêmulo, assustado, procurava-a. Devia estar em algum cômodo, no seu encolhimento, na posição de vencida, com seus olhos de penosa castidade, com o ar de santa, e a dor, essa prolongada e nunca revelada dor no seio, o câncer de sua verde astúcia, a malícia dos animais noturnos, sem nunca se saciar. Aparecia em sonhos, na casa escura, exceto que seu corpo não estava presente, só os traços mantinham-se coesos na respiração de Roberto, como se ele aspirasse o cheiro que mantém os mortos em constante vigília, um odor de tulipas extintas. No último ano, porém, desaparecera totalmente, de seus sonhos, do despertar, das horas. Por fim, já não conseguia conceber nem mesmo um traço, ou fragmento de voz, nada que, por mais ínfimo, escavasse a terra sob a qual o esperava sua mãe, com o abraço de fêmures cruzados, o afago despido de carne. O beijo do pó.

E porque, enquanto cruzava o avarandado, soube que além dos trilhos do trem dormia a casa de Rosa? Decidira passar uns dias no mosteiro. Sim, mas por quê? Para descansar, já que esperava uma semana tranqüila, uma cela para deitar-se, a capela, algum hóspede, por certo, para travar contato? Ou uma hóspede. De certo que não, não alugavam estadia para mulheres. Só então, depois de um ano de ausência, ela retornava, a silhueta de Rosa debruçada numa janela, um desenho recortado por tesouras na paisagem dos álamos, que ladravam como cães, enquanto as corujas espiavam do cimo dos morrotes o jovem Roberto, vestido de terno e calças de percalina, os cabelos já riscados por cãs, seguindo o monge minúsculo ajudando-o com as malas. As corujas falavam alguma coisa para Roberto, algo que não compreendia de todo, vindo do mais distante esconderijo da noite que tecia seu mantel incógnito. O sol se vestira por trás do vale, sua última luz iluminava as folhas dos álamos, curvando-se como ondas do mar tormentoso, dentro do qual Rosa Fiúme rugia o fel espesso, humor da espera nunca alcançada, de um verde de folhas cortadas pelo vento, ondas do oceano e do zimbório de estrelas, desenhando a estrutura de Zéfiro, o colosso. Um ponto se edulcorou, aceso no fim do vale, vela que carrega uma criança, olho que se dilata, ou um simples gato venusino, aquele que espetava o coração de Roberto, vinte, trinta anos.

Aqui, Sr. Roberto — a voz do monge como dobre de sinos.

Apesar de que não se ouviu o badalar costumeiro naquela hora, o órgão evocando a natureza virginal da Mãe de todos os homens, alçando-se aos céus, postergado incenso.

Há água, algumas frutas. O jantar é às oito.

O rosto do monge, como solto no ar, fino como papel, avaro como uma caveira.

E os outros hóspedes? — perguntou Roberto.

Nenhum, nessa época.

Mas ele já conhecia esse fato, apenas quis ouvir do monge as palavras que evocavam a dor, o vestir-se para as celas vazias, beber, comer, caminhar entre os álamos, erguer-se em sua citéria intimidade, quando se procura os corpos gentis.

E o virar-se para as frutas foi a moeda com que pagou o monge, a caridade disfarçada a uma caveira. Morriam ainda os seus passos pelo avarandado, enquanto as olhava.

Mas logo elas perderam o fascínio, as pêras sobre a cômoda. E aquela ânfora, cheia até a borda de água, de formas sinuosas como o pecado.

Roberto sentou-se na beirada da cama. O macio contato com o colchão acendia em sua carne a memória das mulheres, de Virgínia, principalmente, ou de Rosa Fiúme. Como uma lanceta, descendo dos braços anfractuosos de Zéfiro, as mãos esguelhadas de sua mãe pousaram-lhe nos ombros. As clâmides, por terem flores apétalas, possuem a aparência emasculada de uma mãe noturna, com o afiado senso dos espinhos, o predicado que concerne em "afirmar" ou "negar", sempre por escolher o odor intenso, entre as inúmeras armas com que se afia a blandícia. Ele jurara, por Virgínia, pelo corpo mais róseo que já conhecera, pela touquinha no topo dos arcobotantes e dourados cabelos, de tranças várias, e pelos olhos de rosa-chá, que iria curar-se de Rosa Fiúme. Um gato de sete vidas, descendo na hora do angelus, da vila que já o cercava por todos os lados, sem escapar dos agaves nem das mitenes que doavam aos braços de Virgínia o mais excessivo impudor, membros polpudos como salmões na desova; Roberto queria sorvê-los. Abaixo das mitenes, a pele de cetil, que poderia ter a cor daqueles arcos da igreja que separavam a vila do verdor do jardim, como um brasão protetor, tons de leite, que lhe guardava o desejo dos olhos de Rosa. Os lábios de Virgínia, que tanto rumor pronunciavam. Mas aquela foi a hora do silêncio, quando até os mais fervorosos amantes enregelam-se em luar: o aproximar-se de Roberto, o afastar-se de Virgínia. Mas seria preciso que um animal, como a raposa, o basilisco, aquecesse as presas num vocabulário antigo, feito de audácia, de furor. Diante de si, o afeto, nunca antes sentido, porque a mãe não era orvalho sobre a papoula, mas pedra seráfica. Agarrá-la apenas, carne rósea pelo sol, adamascado seio, o vinho das melenas. Então, por entre os agaves, a túnica escura abriu as asas; todos os vitrais da igreja se apagaram e Virgínia recolheu as mitenes, para o mais longínquo retiro de sua leveza. Em Rosa Fiúme o negrejante espectro. Em Virgínia a nuvem de março, ou dezembro.

Quando retornou à casa — pelo jardim os agaves de caules torcidos como os pescoços das górgonas — encontrou na cama de casal Rosa Fiúme, com o rosto transido pela dor virgínea. Pelo muito que esperara, sem forças para erguer-se, o corpo já não podia sentir, insensível o frio a apartava do mundo. Com as víboras de Lacoonte, as rugas do rosto talhadas pelos fachos de luz rendilhada das altas janelas — que perfuravam em muitas ogivas o salão, crescendo até o espelho nos fundos da sala como um espinhaço — Rosa Fiúme era o emblema da dor. Como pudera, por uma diversão "inocente" entre os agaves, esquecer que seu corpo só poderia se manter se o filho a aquecesse, a cobrisse com o mantô de todos os anos, sentasse e aguardasse a chegada do sono, que deveria pousar, qual pétala esquecida, sobre seus olhos? Sobre o espelho o reflexo da igreja, e das tranças cor de ouro puro, desaparecidas.

Roberto lutava por não perder totalmente Virgínia (se já não estava de todo perdida?), mesmo com a mais forte imagem do sentimento por Rosa Fiúme, feito de espectros negros, as ruínas dos agaves. Em meio à escuridão da sala, a luz no cimo da igreja deslizou pelo rendilhado nas paredes, acariciou a pátera com o remédio de sua mãe, os aros dos óculos, até que, descobrindo a repulsão nos olhos de Rosa, aí se deteve, como uma lente que os fizesse crescer, em exímia piedade por Roberto, desvelou-os, exumando-os da falsa prolixidade do sentimento, mostrando-os, cavidades desenhadas por pregos, não os dos martirizados, mas as dos engenheiros de cenários postiços, engodo e milícia das serpentes. Sentiu seus próprios olhos transpassados por uma outra dor, não a que Rosa Fiúme lhe doara por tantos anos, só o suplício daquela compaixão autêntica, construída no instante em que a velhice se mostra a mais astuta desculpa para o domínio. Dor bifronte, pois os olhos de sua mãe, sim, agora, em verdade experimentavam pela primeira vez a "dor", afastada por todos os mimos do medo, a avareza do sofrimento, como dois punhais que lhe fizessem brotar do mais fundo das pupilas os agaves, o rosa-chá, as mitenes, os cabelos coroados, um beijo que fosse, que pudesse sentir, uma delicadeza. Porém, a túnica negra, a mesma que separara Roberto de Virgínia, estendeu a sombra sobre Rosa Fiúme, querendo gritar, partir os espelhos, os vitrais, as víboras do rosto, para que escapasse a única palavra que pudesse defendê-la das sombras, afastado martírio: "filho".

Filho, fora por ele que viera até o mosteiro, àquela cela decorada como um quarto secular, com a ânfora de água e as pêras recolhidas, sábias, sequiosas? Uma cruz pendia sobre a cômoda, havia crucifixos como que perdidos pelo quarto. Roberto não acendera nenhuma lâmpada, continuava sentado na borda da cama, acariciando as pontas do paletó, experimentando apagar, através do tato, a silhueta na janela. Ainda estariam lá, os agaves? Não voltara à Virgínia. Se ela ainda vivesse, entre o jardim e a igreja, que estampa, harpia debruçada sobre os vitrais, deveria odiá-la? O semblante de Rosa Fiúme, encolhido como um mocho, numa bandeira heráldica fincada em seu peito. Em cinco anos, as tintas desbotadas. Olhou as pêras. Assumiam um certo brilho, como os que provocam corações quebrados. O seu coração. Todas as celas do mosteiro estavam vazias, exceto a sua, a do monge com rosto de cadáver. Zéfiro penteava as árvores, porque eram suas filhas. Nas estrelas, nenhuma luz desvelava a estrutura. As tintas se aqueciam de novo. Mas soprou uma réstia, as primeiras cinzas. Um tanto do verdor. Um tanto do sal. 

 

 
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• 7/2/2008 - O campo de dor

 

O campo de dor

 

 

O doutor Manes, sentado atrás da escrivaninha de nogueira triste, recortava com seu semblante castanho o campo que contornava o hospital. Era um homem robusto, de gestos eqüestres, se bem que esses últimos traços ficassem reservados às pernas. Umas pernas longas, fincadas no solo como colunas de ferro, de ferro enferrujado próximo ao marrom. Seu cabelo sedoso, ruivo, terminava numa crina cor de mostarda. Os olhos eram algodões sonoros, sem mostrar as pupilas, sem mostrar o que estava pensando, apesar de que o branco revelava sua energia, a doce, sonora, revigorante energia que une os homens da terra. A cadeira muscular, de ferro e coração, sob a qual sepultava o corpo cansado, tinha à sua frente uma outra cadeira vazia, com braços alcochoados que deveriam ser cariciosos para os braços dos pacientes. Mas os braços dos pacientes são sempre de cor clara, cor de açafrão, de cinza-limão ácido. Muitas vezes magros, muitas vezes frágeis.

Agora Manes observava a menina na cadeira triste, de rosto não tão triste, mas claro, vestida em alfazema. Uma menina que gostaria de estar brincando com suas amigas, mas, ao invés disso, permanecia sentada na cadeira muscular, sorrindo para Manes. Ao seu lado, a mulher de rosto pérola não demonstrava a mesma tranqüilidade inocente. As feições, longe de seu equilíbrio original, assumiam o desenho de uma flor num copo: as pétalas umedeciam a superfície polida. Mas a flor conseguira suar toda sua seiva, era uma flor quase seca, quase cinza, apesar de bela. Pois a mulher ainda conseguia manter sua beleza ingênua, face ao mistério que, naquele instante, unia as três figuras. A pergunta que não podia ser respondida pairava no ar como um pássaro gelado. Era a incapacidade dessa pergunta que matizava o rosto pérola da mulher do cinza nuvem que retesava os traços.

O médico, sem tirar os olhos da mulher, por trás do branco algodoado dos olhos, que lhe dava o aspecto de um cego eremita, pensava em como deveriam ser os dias da Srª Alena. Faziam comentários sobre seu marido. Estava sempre viajando a negócios. Nesse tempo, falavam dos casos de Alena. Manes não distinguia nenhum outro homem por trás da máscara pérola. Nem alegria, muito menos tristeza. Essa última deveria existir. Era só olhar para a menina ao seu lado, os cabelos de trigo maduro, as faces brumosas como a papoula esmaecida. Como seria possível que uma outra menina vivesse dentro dela. Uma menina que continuava lentamente a devorá-la. Podia se notar esse outro corpo pela magreza dos braços e pernas, o cinza-limão ácido da pele. O sorriso em seus lábios seria da outra. As pupilas brancas do médico procuravam a menina escura, que brincava dentro da menina branca. Que movia suas pernas para frente e para trás, que sorria seus dentes claros. Era por causa dela que a mulher cuidava em retesar os traços perolados, não pelas falas secretas, os bicos como os de gralhas que diziam, deslizando entre as ameixeiras e carbúnculos: “O Sr. Rudi está no norte, não volta logo”. “Ele tem uma pasta grená e um capote cinza”. “Vi-o ainda ontem...” “O Sr. Rudi?” “Não, o rapaz cor de neve é que eu vi, que eu vi entrando na casa de Rudi, e ele não está lá”. “Ele não está e a mulher está”. “Mas ora vejam, é possível que isto aconteça, que a pasta grená e o capote cinza não estejam e estejam a mulher e o rapaz cor de neve?” “E há também os cor de montanha, cor do campo, cor das ravinas silvestres”. “Deve ser por isso que ela ficou assim, por isso que eu digo que ela ficou assim por causa dos rapazes, da cor que os rapazes não têm, ela ficou assim como quem paga porque é assim que vai ser mesmo ela tem que pagar porque a pasta grená e o capote cinza não voltaram e ela está com a montanha, o campo, as ravinas silvestres”. “Ele deve voltar logo”.

Nada disso a incomodava, nenhuma conversa sussurrada por trás das portas e janelas, o que a incomodava era a cor da menina e a outra menina escura tão próxima que sorria seus dentes. A piedade tocava o campo de neve dos olhos do médico, retirava com bisturi afiado a pele lustrosa, decalcava rótulas vermelhas nas íris que se ocultavam. Um estremecimento passou pela menina, fê-la fremir como fremia a haste de clematite no copo sobre a escrivaninha do médico. Fê-la fremir como as cortinas sopradas pelo vento do campo. Fê-la fremir - e, então, o bisturi acabara de extrair totalmente a pele dos olhos, dois carimbos rubros, como selos episcopais de cera quente, estamparam as órbitas do médico; seu queixo eqüestre abriu uma garra, as pernas eram tubos de ferro que não suportavam o peso do corpo – como uma cruz de madeira na parede. Manes viu seu vestido no cimo do Gólgota soprado vazio como uma roupa crucificada.

Eles vieram uma vez ao consultório de Manes, a pasta grená e o capote cinza, vieram uma vez porque Rudi tinha algo nos rins, a urina saía escura e cheirava a feno. A pasta grená escolheu se sentar na cadeira em que naquele instante se agitava Alena; o capote foi abandonando o corpo, um corpo magro, branco, um corpo que trabalhava para o mercado de peixe, que executava transações no interior dos cascos dos navios. O escaro dava sempre mais lucro, negociava seu transporte sob o olhar estático de uma escarpa; enfrentava horas de listas azuis, com todos os nomes daqueles peixes gravados numa geleira. Naquele corpo tão branco que se entregava ao escrutínio das mãos de Manes, apalpando o ventre, a princípio sem sinais de algum mal. Mas elas saberiam reconhecer, antes mesmo que necessitasse de exames, algo estava ali, uma turfa negra comendo-lhe os rins, enquanto o capote o olhava sereno, talvez pedindo às suas mãos que lhe ensinasse a linguagem das profecias.

O homem estaria num daqueles mundos gelados, talvez numa proa de navio, esfregando as mãos para que não morressem; sentado diante de um agente do comércio pesqueiro, não pensando nunca em Alena ou na filha, mas em cifras, no lucro com o raro merlim? Costumam, nessas negociações, soerguerem torsos de peixes recém-abatidos: o dorso de uma baleia desventrada, com a espinha imersa em tegumentos de espermacete e gordura, fisgada num arpão a vários metros do solo. Dava-lhe náusea o cheiro de carne de baleia, e até a ordenha do sangue, pingando como chuva nos baldes. Porque se pode brincar com torsos desventrados, pode-se pescar numa escarpa um pensamento, de água clara, de campo e trigal, pode-se triturar com os dentes o que dizem de Alena. E depois de meses ele voltava, para casa, mas logo depois partia. Partia de novo e ia se esquecendo. Voltava e as duas eram como a imitação dos peixes, possuíam olhos globulosos, nadavam num ar branco gelado, eram mãe e filha imersas numa água parada, num reduzido bloco transparente, em que seus rostos adquiriam a tonalidade das águas-vivas.

- O que tenho, doutor?

Manes pôde descobrir na pergunta de Rudi a face extinta, a face de mais de vinte anos, face trespassada pela dúvida. Face da brancura do lírio, frágil quase como se não fosse a face de um homem, ou ainda a fragilidade das coisas não vistas, das coisas mortas que se fazem claras. A face que olhava Alena e expandia-se, como uma rosácea de igreja, como o mirto colhido em sua cor. Pois naquele preciso instante o doutor Manes, o respeitável médico de aldeia olhava Alena. Metade de seu corpo, as pernas fincadas no solo do consultório, férreas e da cor da ferrugem, de pelame marrom escuro, era através delas que a olhava, um olhar das pupilas vermelhas tendendo ao escuro, o ponto negro abrindo sua carnadura de líquido claro, berrando o focinho, as narinas de tegumento que não possuía, porque suas narinas eram brancas, aquilinas, narinas de homem, mas pernas de músculo eqüestre. Não, seus olhos não podiam dizer-lhe o que verdadeiramente sentia, porque um ser como Manes não poderia sentir com os olhos, ou boca, coração, sentiria com as pernas exigindo a terra, palha, café e saliva nas tábuas que pulsavam junto com ele, nas pás do ventilador de teto filtrando o ar parado da sala de consultas, do ar acariciando o cabelo da menina, cabelo claro tendendo à cor, não cinza-ácido dos limões, mas verde campo, dos limoeiros e das folhas dedilhadas pelo vento soprando no campo em volta do hospital, em volta do monte calvo onde, naquela hora, os camponeses voltavam dos estábulos, à procura dos cômodos de pinho, de madeira olorosa e fritilárias, sumo de cerveja, raspas de canela suave, travesseiros de penas de ganso que são como os algodões na época da colheita.

Ele pensava, pensava enquanto suas mãos apalpavam o ventre de Rudi, olhando Rudi, o homem pequeno, encanecido, mas cujos olhos brilhavam, única forma que vive e busca uma palavra: “Diga-me, doutor, diga-me a verdade”. Não, ele não queria aquela verdade que imitava um seio, o seio desnudo que as mãos de Manes acariciavam, as mãos de dedos longos, finos. A verdade é que ela tivera um caso com o rapaz do colégio, durante a última viagem do marido para negociar um barco de escaro, na costa sul de um dos países gelados do norte. Ele os vira, não Rudi, porém Manes, os vira sob a copa do sicômoro antigo: Alena protegia a cabeça do rapaz em suas mãos. Ela não pudera vê-lo, naquela hora, o doutor Manes no meio do campo de relva seca, hirto, da metade para cima, e as pernas frágeis. Não pudera, ou evitara vê-lo, um homem que a contemplava, ser que nunca desafiara o confrangir-se, prostrado de pés e palavras. Quando terminava o dia no hospital, Manes doava o corpo ao campo que se estendia por entre as árvores mirradas e esparsas fazendas, em cujo centro auspiciava o sicômoro, sua coroa de ramos adormecia em sombras os quintais e canteiros das casas, os veios da estrada que atravessava o campo até à cervejaria, onde o lêvedo maduro ardia com a anfractuosidade do milho e do calor. Sob a crista coroada, batizados pelo pôr-do-sol, Alena e o rapaz dourado não se beijavam, não trocavam nenhuma palavra de egoísmo, pois é egoísta o corpo em sua faminta miséria, na condição dos que rogam, insatisfeitos consigo mesmos, assim pensava Manes, que um corpo só deve a si mesmo confessar, a parte de Manes que sobressaía da escrivaninha de nogueira triste era essa confissão, oferenda ao entardecer que pelos braços do sicômoro quebrava-se nos rostos das casas, linhas de luz e palavras ocultas, nos semblantes dos cavalos, dos cavalos prostrados sob os figos do sicômoro, os figos verdes que os cavalos pensavam ser os corações de si mesmos, os cavalos, as pernas de Manes enterradas nas tábuas do consultório eram suas irmãs.

Ele possuía irmãos, como todos. Seus irmãos eram a folha, a terra não saciada, o ligustro, o ar, a montanha. Eram as vidas de todos no campo, de todos do hospital, porque ele imitava as vidas, conhecidas e desconhecidas. Também eram seus irmãos os visitantes das enfermarias, os que vinham ao seu consultório apenas por algumas horas, ou aqueles que ele adorava por um tempo mais longo, ainda aqueles que mantinham os olhos para sempre abertos nos leitos, pálpebras que fechava com suas mãos, sabendo que lhes doava seu golpe surdo. As palavras que ouvia na surdez, no clorofórmio, as palavras que suas mãos colhiam, a semeadura dos corpos, e como eles estariam nos dias por vir. Até mesmo Rudi, até mesmo seu capote cinza sentado numa cadeira se tornava a leitura, sua ciência, de predizer as sombras que vivem por todos nós. E nós poderíamos admirá-lo, enquanto acariciava o seio de Rudi, o seio morno em seu ventre, a turfa negra que lhe devorava os rins. Suas mãos, que penetraram tantos corpos, no leito macio sob as luzes de sódio; que sentiram seus corações quentes, que os escutaram tocar, os címbalos, sinos, harmônios: ele, Manes; Ele, o paciente; elas, suas mãos. Como ele, Rudi, Alena. Como ele, a filha, Alena. O tríptico, encimando a parte mais alta de um sacelo, no interior da igreja de tábuas antigas, apresentava as outras vidas vividas por Manes. E aos pés do sacelo ajoelhavam-se cavalos. Cavalos de barbas tripartites, com pernas de ferro fincadas no solo.

Rudi iria viver. Continuaria respirando dentro dos barcos de pescado, ilhado em meio às escarpas, andando por plataformas, sob guindastes, sob galos de ferro coroados na madurez. Sua urina quente e cheirando a feno, seu seio primaveril, apenas renderiam alguns meses. Manes não tinha ódio por ele. Mesmo enquanto meditava sobre Alena, sobre sua filha, Pérola, enquanto ele as protegia à sombra do dorso marrom, cujo pelame soprado pelo ventilador de teto estalava como agulhas dobradas pelas mãos de costureiras melancólicas, ele pensava também em Rudi, pensava no rapaz dourado abraçando Alena, sob o sicômoro, pensava nos cavalos fechando um círculo em torno das árvores, peixes pintados, velhos, novos, cinzentos, em torno da água de seu próprio batismo, porque o rapaz escutava de Alena que Pérola era uma menina, ele sonhava uma menina sem corpo, ele a bebia, sorvia-a, mordia os dentes, respirava o ar sazonado do cesto de maçãs, cidra e calor, era como uma parte das árvores lá fora. Para Manes, os dias de sua infância lembravam Alena e a filha, porque ele sempre lembrava, e, nesse lembrar, canto de paciência, carpintaria do tempo, lia e se afastava de si mesmo, enquanto dormia, corpo acolhido numa flor anestésica, o besouro, ou um cavalo subindo o dorso do campo de relva. Elas dormiam, Alena, Pérola, dormiam e metade de seus seios respirava, metade de seus órgãos dormiam nas mãos de Manes, lavadas inteiras, dentro de suas águas, nas margens do rio que cortava o campo do hospital até elevar-se música sobre os celeiros, sob as rodas das carroças, nas cartilhas dos bedéis, na flor dos chapéus, na maciez das luvas, no interior das máquinas triturando o milho, no cansaço.

Não, ele não tinha raiva e nunca a poderia ter, pois todo seu cansaço provinha da cor do vinhedo, não era em Rudi que experimentava o cansaço, mas eram suas pernas que pesavam enquanto a tarde ia declinando nas enfermarias do hospital. Da mesma forma Rudi, como Alena e Pérola, também sentado a enfrentar Manes, sentindo o seio suplicar por baixo dos fios cardados do capote cinza, rogava que o médico lhe dissesse “a verdade”. Mas como poderia confessar, porque a “verdade” ainda estava de pé, sob a coroa do sicômoro, uma “verdade” dourada, fincada na terra que a tudo devora. Manes olhava o homem envelhecido, pequeno como um cupim, que de inseto passara a rastejar na terra: ele sabia sobre Pérola. Sabia que aquela turfa negra não era a mesma que lhe comia os rins, que havia em Pérola uma outra Pérola, mais encolhida, mais velha, de rosto engelhado como de um duende, que passara a viver pela menina, que se nutria, respirava, dormia por ela. E de que forma seria possível a um homem, buscar ainda a “verdade” se o amor (o cavalo brotando na janela como uma aglaia na margem) de sua carne ia renascendo – o amor poderia ser descoberto nas mãos trêmulas de Rudi, mãos antes inertes – à medida que Pérola reunia com cada vez mais afagos as gaultérias, o lúpulo, as folhas de marga?

Mas antes que pudesse responder a Rudi, o doutor Manes percebeu que um corpo doente pode ser uma salvação. A cabeça avermelhada de ossos do doutor Manes se erguia ante o campo noturno, em seu dorso Alena e Pérola, o urso de seus cabelos dizendo a todos que o amor, mesmo sem amor, tem o direito de pedir uma retribuição. As mãos do doutor Manes, abertas para o ar que soprava dos ramos do sicômoro, suas mãos mergulhavam como pássaros de neve na tinta das granadas, nos bulbos e féculas, por entre os gerânios que desenhavam a aléia, sob a carne das mulheres, o dorso marrom sabia amá-las nesse momento, suplicava-lhes a espada e o trigo, o tigre e a fábula, ele, com suas mãos sagradas, levava-as pelo campo, montadas, as princesas do branco, do marfim, do gelo puro. Suas mãos, na união com a carne, dentro das mulheres, afiadas facas dentro das mulheres dormindo insones, eram toda a infância numa oferta, infância que nascia a cada instante nas enfermarias do hospital, inventada todas as vezes que Manes possuía dez, cinco, três anos, brincando com mulheres, como se brincam as paredes dos órfãos. Algumas voltavam para seus lares, voltavam, mas retornavam depois de alguns dias, meses, anos, pois sempre retornam às suas mãos as filhas ou para o homem de ferro que as acolhe, o grande homem de pernas de ferro fincadas no assoalho de tábuas que lia seus corpos, um campo estéril, a vindima sem frutos.

Manes, porém, enquanto atravessava o campo com Alena e Pérola em seu dorso, não desejava a carne, mas o sonho. Elas dormiam em suas noites (até mesmo ele, Rudi), sem lua no céu, de orvalho nas campinas, dormiam como pássaros capturados na caixa de ferro, com sua música asséptica, a superfície lavada e fria, lendo seus corpos, traduzindo o campo de sua pele, numa página tão aguda como um salgueiro molhado e carregado de carriços, e a página era virada pela mão de Manes, para uma outra página branca suave, cor nas margens de chaminés, cor nas margens de casas de tijolos e cheiro de cerveja, pele branca, camisola fina branca barata, cabelos louros maduros, cobertores, a quentura, o amor.

E pela primeira vez, pela primeira vez em anos que já atingiam a longevidade de uma rocha em suor, que um escultor esculpiu até lavar patas de primavera, marrons e escuras, como uma túnica envolvendo o torso de um homem belo, querendo só a delicadeza da chuva, voz do pinho, mãos das avezinhas, pela primeira vez Manes olhava um corpo, atado em lençóis. Ele sonhava um corpo. Lembrava-se (e suas pernas tremiam) da mãe de Pérola, de que seu rosto, mesmo sem revelar muita cor ou graça, rosto de limão cinzento ácido, ainda era um rosto que o fazia tremer, rosto que levava, com a suavidade das falenas, as roupas da filha para casa, como se levam flores para uma cidade cantada por mortos. E se naquele campo toda a terra fosse uma conversa de mortos, pensava Manes, fosse um diálogo de moças mortas conversando no miolo da terra, trançando uma corola de forma que o rio que corta o hospital imitava o rio em sua cauda até as plantações e a imorredoura cidade, cidade de luzes oblíquas, telhados, força máscula, força feminina, rocio, choro, escolas, igrejas, casa de dois velhos acariciando as mãos, inventando filhos. Pela primeira vez Manes descansava o corpo, curvava-se ao peso dos lençóis limpos e brancos que iriam oferecer-lhe em breve a pele, a metade de um seio, a respiração quase finíssima que atravessava folhas, lírios, vilas, ardósias do lábio, partidos que se entregavam nas ruas familiares ao beijo da última noite. O corpo de Manes deslizava cansado, num torpor, num morno torpor provocado pela fécula dissolvendo-se em seus lábios, gosto de limão cinzento e granada, torpor de anestesia, ou de flecha, da flecha que agora cravava em sua metade marrom sedoso, íntima, violenta, mas cansada. Que o fazia tombar, a outra metade lisa, polida, esférica. E suas mãos rogavam à enfermeira, que acabava de derrubar uma bandeja de instrumentos cirúrgicos no chão, pediam à enfermeira assustada que as cobrissem com lençóis, que as esquentassem na noite de milho maduro, de cerveja e ebriedade, na noite que domava o corpo de séculos, galgados e eqüestres do doutor Manes.

 

 LEONARDO VIEIRA DE ALMEIDA

Este conto integra o livro inédito A flor no rosto

 

 

       

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• 7/2/2008 - As velhas

 

As velhas

 

O quanto sobrou de Eli no rosto de Francisca, podemos nos perguntar, se postamo-nos numa dessas janelas verdes e olhamos a pequena senhora curvada, como uma antiga caixa de espírito, parada diante do espelho? Francisca espera que a irmã termine de arrumar os bandós brancos, aquecidos pelo xale empoeirado e o chapéu de fitas azuis. Mas Eli não parece temer que ao se afastar do espelho, sua face continue congelada na superfície vítrea, alisando os cabelos com mãos pequenas e cinzentas, para depois apertá-las contra o peito. E quando ela, como um peixe de espadanas douradas abandona o espelho, nós inclinamos as cabeças um pouco mais para dentro da casa; só que o lago bisotado, com moldura entalhada no carvalho, guarda, realmente, o rosto de Eli. Menos envelhecido, mais alegre do que o de Francisca.

Não estamos mentindo quanto ao rosto de Eli. Apesar dos longos anos, ele conserva um ar infantil, mesmo entre todas as rugas brilham dois olhos negros que se tornam azuis, quando uma docilidade maior os envolve. Parecem por vezes olhos de elfo, certa luminosidade indica um gosto pela maldade frívola, mas que denuncia com maior vigor um determinado encantamento. Eli, de Eliza, pois assim chamava-a seu pai, não se nega a concordar que o tempo não conseguiu destruir sua intensa fragilidade. Tornou-se mais leve, com os anos, como se os relógios houvessem, delicadamente, a esvaziado de todo o peso que, segundo o senso comum, assinala o declínio da idade. Se pudéssemos entender o que de fato aconteceu com Eli, diríamos, por dedução, que sua vida aparentemente livre de qualquer acontecimento notável, afastada da sociedade, vivendo toda essa época com sua irmã, suportando-lhe os caprichos, o olhar rude, sem amantes ou filhos, a conservou tanto da alegria ou da dor. A soma final foi ter se tornado uma intocável. E o tempo não se esforçou em maltratá-la, nem em amá-la.

Já Francisca, o rosto engelhado como o de um rinoceronte frio, conserva os olhos sobre as costas da irmã, que atravessa a sala, em direção à porta. As costas de Eli queimam, já que as pupilas da irmã riscam-na, acesas como fósforos, com um ardor que os anos não conseguiram arrefecer. E mesmo que sejam duas velhas solitárias, apartadas do mundo, nem cartas, ou telefonemas, alguma notícia de parentes - dir-se-ia até que a casa onde moram revela a austeridade de um templo, caiada, polida e branca ao luar que a dissolve em grãos de nuvem -, que sejam iguais tanto Eli quanto Francisca, pois lhes reservou a senilidade o abandono, ainda Francisca sente que Eli é a preferida, porque se encolhe com maior ímpeto na cadeira de braços. “Vamos, querida, é hora do trabalho”, lhe Eli diz, numa voz de assobio, saindo pela porta para o luar.

Para Eli tudo é afago, nós mesmos sabemos. Enquanto ela se encaminha para o pomar, continuamos a divisar Francisca, retesada na cadeira, olhando o rosto da irmã que permanece no espelho. Mas quando foi que ela ganhou o primeiro brinquedo? Uma casa de bonecas, com janelas verdes e rebordos cor de rosa, com cortinas xadrez e uma chaminé. Havia aquela menina ruiva dentro da casa, vestida com colete azul. Francisca corria atrás dela sobre o piso preto e branco. Havia a rainha, de gola irisada, como afiados salmões escarlates; os cavaleiros armóricos, segurando bandeiras com brasões. Eli atravessava o labirinto de topiaria, escondendo-se dela. Mas Francisca acabava encontrando-a na margem do lago, e depois entravam na cozinha muito grande para elas, as latas de biscoitos tão altas que era como se quisessem comer as estrelas.

“Há muitas estrelas no céu, Francisca!”, ouve a voz de Eli sussurrando, longe, como se viesse em fiapos pelas ramagens.

“Já vou!”

O tom das palavras é amargo. Como se atender ao chamado de Eli é servir a uma velha obediência. Levanta-se da cadeira, aproxima-se do espelho e lá está ela: o rosto fustigado por granizo, como um fiorde; o cabelo pintado de louro; a cabeça miúda pousada sobre os ombros arqueados, pois toda sua vida é cansaço. O xale empoeirado, o chapéu de fitas azuis, os bandós brancos, todos esses traços de Eli permanecem no espelho, sobrepondo-se à sua própria imagem, um misto de Eli e Francisca, que lhe empresta uma coloração mais viva.

“Mas não passa de uma vida emprestada”, grita a velha. “Com enfeites de máscara”. Francisca agita os braços de encontro ao espelho, e a irmã se desprende da superfície, abre as asas e, num vôo, como pássaro, foge da sala. Está lá fora, no pomar, com suas coisas, seus tesouros: a pá, a tesoura, o veneno para insetos.

A lua se recolhe no pinheiral, seu rosto pálido descansa sobre o delicado lençol verde, sussurrando pelo vento que passa. Vaga-lumes desenham espirais de luz sobre a cerca que separa o pomar da casa de Eli e Francisca. Além, muitos metros à frente da cerca, começa o atalho entre os pinheiros, que leva até o lago de barcos ancorados, exibindo ao luar seus esqueletos.

Eli segurava a mão de seu pai, toda uma estrela que ele pudesse acariciar, assim, com seus dedos nodosos, macerados de cigarros, a pequena estrela-do-mar que era a mãozinha de Eli. Os brotos floriam de cada lado do atalho, e Francisca, com o vestido cinzento, vinha atrás deles, esmagando pétalas de uma flor. Ele era um gigante. Uma faia, ou carvalho, um gigante de madeira sobre o qual pousara uma estrela. E apesar de suas costas estarem apagadas, que todo seu corpo fosse uma vela fria, aquecera alguém, há alguns anos atrás, uma outra estrela que nem Eli ou Francisca se lembravam, dormindo agora como concha debaixo da terra, mas ainda refulgente na mãozinha de Eli. Pois só em Eli o pai ainda notava os traços da mãe. Enquanto Francisca era algo de bastardo, de erva daninha, entre os girassóis de talos erguidos, queimando ao luar.

“Veja essas maçãs! Veja, Francisca, como pomos de ouro”.

Ela borrifa as maçãs com a bomba de inseticida. Insetos voejam em torno dos frutos, como lanternas que iluminam as formas do pomar. Francisca vê a cesta com a tesoura de Eli. “Se pelo menos eu pudesse cravá-la em seu peito, até quando poderia sobreviver?” Essa mulher muito encolhida, tão cinzenta, olha a irmã com a bomba nas mãos. Porque o chapéu de fitas azuis parece arder em sua cabeça? Como se ela fosse uma ninfa, como se fosse a única filha de seu pai.

Francisca cava com a pá um buraco no chão. Distribui algumas sementes, molha-as com o regador. Depois as cobre de terra. Ali em frente há abóboras, com os talos verdes retorcidos se enroscando na cerca. Repolhos cobertos de orvalho. O primeiro broto de uma pereira. As pêras fulgindo ao luar, como delicados diamantes, como lágrimas que poderiam cair dos olhos de Francisca.

Seu pai sentava-se à beira do lago cercado de pinheiros, o braço sobre o ombro de Eli, a mão acarinhando seus cabelos. Era uma cabeleira negra, adornando um rosto de mármore. Olhos recortados como os de chinesa. Todos achavam-na a mais bela menina. O pai contava-lhe a história dos peixes daquele lago, que antes haviam sido príncipes, mas por invejarem seus amigos ainda mais belos, foram transformados em espadins, que podiam ser vistos no fundo da água, deslizando entre o musgo e as algas. Francisca, partindo um graveto com as mãos, sabia de quem seu pai estava falando. Sim, mas então como seria possível perdoar a beleza? Ela correu até a margem, apontou o dedo para o disco prateado no céu, depois para os peixes, mas ninguém reparou nela. E o sussurro dos pinheiros se juntava às últimas palavras de seu pai.

Apesar da beleza, não foi reservado à Francisca o único prêmio que lhe poderia caber. Não se casara. Em todos esses anos, só uma vez alguém a desejara com ardor. Eli, a menina de olhos de chinesa, esperava-o todos os dias diante da janela. Por que o menino de rosto claro, com o boné sobre os cabelos ruivos, pousado na bicicleta, ainda possuía olhares para Francisca? Ela sabia que seus olhos não eram os mesmos que pertenciam à Eli, quando se preocupavam em olhá-la. Perguntavam: “O que fez de Eli a raposa ao luar, e de Francisca a raiz envelhecida?” Ela fugia para seu quarto, o travesseiro de penas acolhia sua face, como dedos maternos.

Eli esperou todos os anos por uma palavra do rapaz ruivo. Era então a mesma esbelta Eli de agora, cujos cabelos deixavam sombras azuis por onde andava, abrindo as corolas das mitárceas, desenhando arcos dourados sobre os dias de Francisca. Ela os seguia, comungava todos os seus gestos sagrados. Viu quando Eli inscreveu com as unhas o nome dele no tronco do sólido carvalho. E como seus dedos sangravam, como os envolveu na túnica branca, mas as rosas de seu sangue purgaram com manchas de catedral o linho fino. Depois Eli não mais o encontrou. Por quase um ano o esperara na janela, as pupilas querendo acariciar a relva, os pinheiros, as folhas e a lua. Ela ainda o espera.

A lua adormeceu sobre os braços do pinheiral, parece uma criança loira, engolindo com o sono as estrelas. Francisca corta o último espinho de uma rosa. “Venha, Eli. Já terminamos”. Sua voz é doce. Se ela fosse apenas voz, um sopro da noite, e não pudesse ser vista, não a atingisse mesmo com a velhice, pois se não é mais jovem, no entanto permanece a esfinge grisalha, leve como profetisa, pura como a flor da montanha.

Quando elas retornam a casa, a lua não emite mais nenhum movimento. Todo seu rosto é sonho. Os cômodos é que se mantêm acordados.

Eli deixa a cesta sobre um sofá, depois se dirige para o quarto. Francisca se aproxima da cesta. Consegue observar as gavinhas amarradas com uma fita verde. Não deixa de ser diferente, após tantos anos. Todas as vezes que voltam do pomar, a irmã faz esse arranjo com as gavinhas. Elas decoravam seus bolsos, além das rosas brancas, das flores fanadas, em torno do corpo. Francisca não colocara em uma de suas mãos a pomba branca? Ele seguia pela aléia das árvores despidas, como monjas tímidas, pedindo o agasalho da chuva, com a pomba por debaixo da tampa. Em seguida a terra, os grãos dedilhando a madeira. Algumas nuvens formando coroas no fim da tarde. E desde então permaneceram juntas, muito mais do que antes, mesmo que Francisca gritasse, em sua vibração muda, sob a chuva, que o pai pensara que a pomba fora feita por Eli. Que seus olhos por último tivessem visto Eli.

“Não deixe de dar corda no relógio”, Eli exclama, com um arrulho suave escapando do peito.

Ela não está mais no espelho, nem sua irmã. Nós nos vemos em sua face polida, e ao mesmo tempo as velhas nuas, começando a esconder a empoada vergonha sob as camisolas.

Quando se deitam, cada uma agradece à outra. Francisca vê a pomba branca, frágil, como de algodão. Os olhos acesos e rindo para ela.

“Boa noite, Francisca”.

“Boa noite...”

Por um instante, Francisca escuta o velho, doce e fatigado arrulho das portas, dos relógios, dos seios das pombas, perdidos no ar, rumo à morte, como uma harpa.

 

Leonardo Vieira de Almeida

 

Este conto integra o livro inédito A flor no rosto

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• 7/2/2008 - As mãos do açougueiro

   

AS MÃOS DO AÇOUGUEIRO

 

A mulher entrou no açougue e observou as peças de carne penduradas no balcão. O homem atrás dele, com as roupas sujas pelo ofício, decepou com o cutelo a asa de uma galinha. Olhou para a mulher, mas um tremor convulsionou seu rosto; não conseguiu encará-la de frente.

Ela pediu que embrulhasse a galinha junto com a asa. Ele escutou, mantendo a cabeça baixa sobre o decote, onde sardas despontavam da carne limpa e branca, entre os seios redondos. Sentiu um espasmo na mão, no momento em que largava o cutelo e batia a nota na caixa registradora. A mulher tirou o dinheiro da bolsa e não precisou de troco. Colocando o embrulho

com a galinha dentro da bolsa, saiu do estabelecimento.

O açougueiro levantou o rosto, livre do tremor, foi acompanhando a mulher desaparecer, o corpo, transbordando das peças de roupa, sumir numa esquina. Ele engoliu em seco, saiu de trás do balcão e foi até a entrada olhar as ruas desmaiarem no final da tarde. Fechou a mão que tinha segurado o cutelo e sentiu uma espiral de dor fisgar até o ombro. Depois, abriu a mão, sentindo a superfície áspera de sangue coagulado. Era hora de fechar.

Desceu a porta rolante e colocou o cadeado. O interior do estabelecimento apenas se iluminava pelas lâmpadas do balcão, onde peças de carne exibiam- se sem pudor, deixando gotas de sangue pingarem sobre as bandejas metálicas em que moscas gordas se acumulavam. O açougueiro, aproximando-se do balcão, retirou de cima o cutelo, apertando a mão no cabo. Apagou a luz. No cômodo lateral, depositou o cutelo na pia. Levantou o rosto e pôde vê-lo estampar- se no espelho, branco e sulcado. Exibiu os dentes, amarelos quando tocavam as gengivas. Abriu a torneira e começou a lavar as mãos, retirando as crostas de sangue coagulado, esfregando-as com sabão. Abriu mais a torneira, deixando que a água desmanchasse as nódoas sobre o cutelo. Ergueu as mãos e as cheirou, limpas. Secou-as na toalha, depois secou o cutelo. Saiu.

Ele ergueu a maçaneta e um sopro frio atravessou seu corpo, ao abrir a porta da câmara frigorífica. Acendeu a única lâmpada, que destilou sua luz alaranjada, infiltrando-se no vapor que emanava das peças penduradas nos ganchos: coxas, costelas, torsos decepados exibindo os ossos, músculos e nervos. O açougueiro entrou na câmara, apertando com mais força o cabo do cutelo. Estacou de frente a um pedaço de carne comprido, com ossos despontando entre as fibras.

Sentiu a superfície gelada e aguda do cabo. A mulher já deveria estar em casa com o embrulho da galinha. O açougueiro ergueu o braço, desferindo um golpe sobre o torso de carne, abrindo um sulco com a lâmina do cutelo.

Deixou que o cutelo caísse, escutando o barulho reverberar dentro da câmara. Penetrou o talho na carne com os dedos, abrindo espaço entre as fibras enregeladas. Sentiu as lâminas de gelo fino quebrarem-se à passagem da mão, com dificuldade. Quando deixou que a mão se enterrasse até o pulso, retirou-a e, com a outra, abriu o zíper da calça.

Com as mãos livres, o açougueiro deixou a calça deslizar pelas pernas, retirando o pênis. Com a mão direita, começou a friccioná-lo, até que estivesse ereto. Soltou um grunhido, quando sentiu a glande penetrar o talho e uma comichão fria espraiar-se pelo corpo. Foi empurrando, até sentir a glande ferir-se num osso. Penetrou mais, no instante em que enterrou as unhas nas fibras da carne e o osso cortou seu pênis. Começou a cavalgá-la.

Tinha o rosto virado para o teto da câmara frigorífica, onde a luz alaranjada derramava-se sobre

seus olhos arregalados. Abraçado à peça de carne, o açougueiro punha e retirava o pênis, arfando sobre o torso em que penetrava, exibindo os dentes a cada vez que o osso fisgava a carne macia da glande. Quando já possuía as pontas dos dedos enterradas nas fibras

do torso, o pênis soltou golfadas de esperma dentro do talho. As fibras de gelo fino, já derretidas, misturaram-se ao sêmen e ao sangue que descongelara.

O açougueiro prostrou-se de joelhos sobre o chão da câmara frigorífica. Viu a glande cortada vazando sangue, os laivos de esperma juntando-se à pele. Subiu as calças, afivelou o cinto. Sem gemer, enfiou a mão no talho, podendo sentir a carne já amolecida e sangrenta pelo contato físico.

Levantou-se, segurando de